Fito

Toda criança do planeta inventa novos significados para os objetos. A menina do Sertão transforma ossos de bode em família. O menino do Japão transforma mouses em carrinhos de corrida. O ato é natural. A brincadeira é espontânea. Mas o tempo passa. E o cotidiano contemporâneo distancia a menteadulta de sua verdadeira vocação: olhar para as coisas de um jeito diferente.

Há quase 40 anos, seis companhias da França tiveram o impulso de olhar para o teatro de um jeito diferente. Criar, produzir e encenar espetáculos com foco absoluto nos objetos. Théâtre de Cuisine, GareCentrale, Gyulio Molnar, Théâtre Manarf, Vélo Théâtre, Teatro delle Briciole. As experiências não alteravam a característica original dos objetos. A inspiração para a construção dos personagens vinha da sua anatomia de fábrica. No palco, as coisas ganhavam novas funções. Jogos de cena desenvolvidos a partir de metáforas, metonímias e associações de ideias. O movimento foi batizado de Teatro de Objetos. A compreensão da identidade do personagem acontece pela própria aparência do objeto, que simbolicamente remete ao protagonista. Pelo movimento da coisa em cena. Pela interpretação de suas falas. Por sua representação no coletivo e na pessoa. Por isso, o Teatro de Objetos acaba sendo também um fundo baú de memórias. Um largo relicário de lembranças.

Olhar atentamente. Fitar. Fito. Festival Internacional de Teatro de Objetos. O primeiro do Brasil.

Olhar atentamente. Fitar. Fito. Festival Internacional de Teatro de Objetos. O primeiro do Brasil. Pela primeira vez em Maceió. Um convite para enxergar, nas coisas, outras coisas. Eu Fito, tu Fitas, Maceió Fita. Fita o centro histórico virar palco de novas histórias. Fita 130 apresentações inéditas, envolvendo sete países. Fita performances, intervenções musicais, exposição fotográfica, cenografia interativa, oficinas artísticas. Tudo com objetos. Made in Brasil, França, Espanha, Argentina, Holanda, Alemanha e Itália.

Uma proposta ou uma provocação? Desde 2009, o Festival Internacional de Teatro de Objetos passou por nove capitais brasileiras, de norte a sul do País. Fitou e foi fitado por mais de 300 mil pessoas. São 300 mil olhares em transformação. Eu, por exemplo, vejo saca- rolhas de aço rodarem tão levemente quanto bailarinas de tule cor-de-rosa. Sóbria, sem abrir uma garrafa de vinho, vejo bailarinas em saca-rolhas. Uma espécie mutante do Lago dos Cisnes. Saca-rolhas que não abrem somente garrafas. Saca-rolhas que abrem sorrisos. Lembro os objetos inventados pelo escritor Manoel de Barros quando era pequeno. Abridor de amanhecer. Encolhedor de rios. Esticador de horizonte. Depois que o Festival passa, muitas perguntas ficam. O que pode estar escondido no fundo do armário: copos, pratos ou a própria infância? É possível voar nas asas das xícaras? O que pode estar esquecido na caixa de ferramentas: martelos, pregos ou brincadeiras de pai e filho? É possível atravessar a fenda da chave de fenda? O Fito acredita que sim.

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